Logo
Dissertação

Processos produtivos e trabalho-educaçãoa incorporação do caboclo catarinense na indústria madeireira

Martendal, Jose Ari Celso

O documento é disponibilizado pela fonte de origem, que mantém a versão integral e as condições de uso.

Resumo

É tema-objeto do presente estudo uma população de caboclos que, na região serrana de Santa Catarina, a partir de 1950, foi absorvida como mão-de-obra nas serrarias que lá se instalaram. A abundância de araucária (espécie nativa de pinheiro), a abertura de mercados e o favorecimento de outras condições para a exploração industrial fizeram com que, em grande número, pequenos empresários provenientes basicamente do Estado do Rio Grande do Sul adviessem e montassem inúmeras serrarias junto a florestas e campos abundantes de matéria-prima, em toda a região, que vieram a produzir em larga escala a 'madeira bruta serrada'. E tão intenso foi este processo de industrialização e tão avassaladora a predação dos pinhais que, em menos de três décadas, as reservas se esgotaram. Os caboclos, absorvidos como mão-de-obra nas unidades de produção de madeira, viviam tradicionalmente num regime econômico de subsistência, no cultivo de suas terras (o caboclo roceiro) ou prestando serviços em fazendas de criação de gado (o caboclo peão). No entanto, as 'vantagens' que lhes foram oferecidas pelos industriais recém-chegados (salário pago em dinheiro, moradia nova e em vilas, outros favores) fizeram com que a grande maioria abandonasse seu trabalho tradicional e se engajasse como 'operário', o que, além de se constituir numa novidade, era um fator de prestígio. Contudo, o esgotamento das reservas de araucária e o consequente e progressivo fechamento das serrarias fizeram com que este contingente de operários fosse sendo liberado e formasse um fluxo migratório em direção à principal cidade da região, Lages. A cidade de Lages, porém, que fizera da madeira seu principal suporte econômico e que se descuidara da implantação de urna indústria alternativa, não conseguiu oferecer aos migrantes 'lugares de trabalho' suficientes. E assim, nas periferias desta cidade, começou a se localizar uma população marginal. Este estudo, no contexto do tema-objeto, aprecia duas questões centrais relacionadas com a realidade trabalho e com as formas de exploração econômica: i) as relações de produção no regime econômico de subsistência e no regime de produção industrial capitalista e as correspondentes 'posições' do trabalhador frente ao processo produtivo; ii) as repercussoes educativas decorrentes dos processos produtivos, quer no regime econômico de subsistência, quer no regime de produção industrial capitalista. As duas questões são discutidas teoricamente e confron tadas com a realidade proposta, resultando em constatações que, numa formulação geral, assim podem ser resumidas: a) os caboclos da região serrana de Santa Catarina, quando em regime econômico de subsistência, mantinham o domínio do processo produtivo, observava-se urna divisão social do trabalho que possibilitava e ocasionava: a geração de conhecimentos a partir de sua experiência de trabalho e de vida, a confecção de grande parte de seu instrumental de ação e a criação de outros artefatos necessários e adequados às próprias condições ambientais; b) no entanto, estes mesmos caboclos, quando enquadrados no processo de produção industrial capitalista - representado pelo trabalho de serraria, perderam o controle e o domínio do processo produtivo por força de uma divisão tecnológica do trabalho, passando cada qual a executar uma operação monótona e repetitiva, comandada pela velocidade da serra-maior, abdicando de seu engenho e criatividade e postando-se sob uma coordenação gerencial que os transformou em trabalhador coletivo; este processo produtivo levou-os a uma situação onde a experiência cotidiana de trabalho nada lhes acrescenta em termos de auto-gerção de conhecimentos e onde os recursos educativos do meio se reduzem a novas formas de adaptação ao próprio processo, relegando à estagnação a sua capacidade criativa. A segunda constatação não se constitui em contra a modernização e nem sugere uma preservação de situações passadas. Discute-se ainda o trabalho como fator de educação junto ao trabalhador que está inserido no contexto da divisão tecno lógica do trabalho. Busca-se um mecanismo que possibilite o desenvolvimento de suas potencialidades educacionais, via trabalho, permitindo assim a conquista de seu lugar na sociedade, como um participante capaz de se expressar na ação politica.

Ficha do documento

Tipo
Dissertação
Ano
1980
Instituição
Fundação Getulio Vargas
Idioma
Português
Acesso
Não informado
Identificador
oai:repositorio.fgv.br:10438/8918

Conteúdos relacionados

Voltar à Biblioteca
Logo