A captura silenciosa do Estadotransparência em renúncias nos estados brasileiros
Torres Júnior, Franklin Maciel
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Resumo
Objetivo – Este estudo pretende avaliar a transparência dos gastos tributários nos 27 estados brasileiros, utilizando os 50 estados americanos como contraponto analítico, para determinar se a divulgação de dados reflete um controle efetivo ou apenas um cumprimento formal de regras (isomorfismo institucional). Além disso, busca investigar se a opacidade na avaliação atua como mecanismo para evitar o controle de eficiência e facilitar a captura do Estado. Metodologia – A pesquisa aplicou o Global Tax Expenditures Transparency Index (GTETI) e o Índice Geral de Transparência da FGV (IGT-FGV) adaptados a 77 entes subnacionais, analisando uma série temporal de 2017 a 2024. Foram comparados os scores de transparência entre os estados brasileiros e americanos utilizando o teste de Mann-Whitney, e a correlação entre a opacidade e a magnitude da renúncia fiscal foi testada com o coeficiente de Spearman. Adicionalmente, foi realizado um teste de transparência passiva por meio de pedidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) em todos os estados brasileiros e um estudo de caso com cruzamento de dados empíricos no Estado de São Paulo para investigar a sobreposição entre beneficiários e fornecedores do governo. Resultados – Os resultados demonstram que a transparência de fato no Brasil é significativamente inferior à dos Estados Unidos (diferença de 19,18 pontos no GTETI, p = 0,0163). Observou-se uma convergência na dimensão formal de Disponibilidade Pública (BR = 77,70 vs. EUA = 77,06), mas uma divergência acentuada nas dimensões de Metodologia e Avaliação (51,9% dos estados brasileiros abaixo de 30 pontos vs. 8% nos EUA). A correlação entre o IGT-FGV e o GTETI (Spearman ρ = 0,933, p < 0,0001) indicou que a opacidade é um traço sistêmico da governança fiscal. O teste via LAI revelou que a maioria dos estados brasileiros não respondeu ou recusou o fornecimento de dados de beneficiários sob justificativa de sigilo fiscal. No estudo de caso em São Paulo, identificou-se que 0,51% das empresas beneficiárias concentraram 9,65% de todo o crédito outorgado e atuaram simultaneamente como fornecedoras do governo estadual. Limitações – A principal limitação da pesquisa é a adaptação de um índice nacional (GTETI) para o nível subnacional, o que pode introduzir algum grau de subjetividade. Adicionalmente, a indisponibilidade de dados granulares sobre beneficiários na maioria dos estados brasileiros, protegidos sob sigilo fiscal, impediu a replicação do estudo de caso de rentseeking em escala nacional. A série temporal de oito anos também não permite capturar os efeitos de longo prazo de reformas normativas recentes, como a Emenda Constitucional nº 132/2023. Aplicabilidade do trabalho – A partir destes resultados, gestores públicos e órgãos de controle podem identificar que a mera exigência de publicação de relatórios agregados não é suficiente para garantir a transparência fiscal. O estudo evidencia a necessidade da adoção de um padrão contábil nacional obrigatório, inspirado no GASB 77, que exija a identificação dos beneficiários, a explicitação da metodologia de cálculo e a realização de avaliações periódicas de custo-benefício dos programas de renúncia fiscal. Contribuições para a sociedade – Ao evidenciar que a opacidade atua como mecanismo de captura do Estado, a pesquisa alerta a sociedade sobre como recursos públicos que deixam de financiar áreas essenciais estão sendo direcionados a grupos de interesse sem avaliação de impacto. O aumento da transparência nesses gastos permite um controle social efetivo, empoderando o cidadão para o debate informado sobre a alocação da riqueza nacional e contribuindo para a redução de desigualdades e a prevenção de favorecimentos indevidos. Originalidade – Pelo nosso conhecimento, este é o primeiro estudo que adapta o GTETI para entes subnacionais e realiza um contraponto analítico entre todos os estados do Brasil e dos Estados Unidos em uma série temporal de oito anos, demonstrando empiricamente o fenômeno do isomorfismo institucional na transparência de gastos tributários.
Ficha do documento
- Tipo
- Dissertação
- Ano
- 2026
- Instituição
- Fundação Getulio Vargas
- Fonte
- Repositório da FGV
- Idioma
- Português
- Acesso
- Acesso aberto
- Identificador
- oai:repositorio.fgv.br:10438/39868
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