Desenvolvimento pra quem? Uma análise dos impactos da atuação de uma multinacional brasileira em solo africano
Spohr, Nicole
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Resumo
A literatura em Responsabilidade Social Corporativa (RSC) vem debatendo há décadas os impactos da atuação de empresas na sociedade. O paradigma clássico defende que a RSC só compensa se resultar em mais lucros do que os possíveis prejuízos de sua não utilização. As críticas a esta visão instrumental culminaram na emergência da perspectiva política de RSC, que sugere um modelo estendido de governança, em que empresas contribuem voluntariamente para o bem estar das sociedades em que operam. Apesar da virada política, a agenda de pesquisa em RSC não tem focado suficientemente em questões relevantes para países periféricos, a exemplo das assimetrias de poder entre corporações multinacionais e governos locais. Sendo a dimensão do poder um dos objetos do pós- colonialismo, defendo que esta abordagem pode contribuir para a discussão da RSC na periferia global. Assim sendo, a questão que este estudo pretende responder é: de que modo uma multinacional da semi-periferia faz negócios na periferia? Com vistas a responder esta pergunta, investiguei os impactos da atuação de uma multinacional brasileira em um país africano. A pesquisa de campo contou com 28 entrevistas em profundidade com membros da multinacional e da sociedade civil. Além disso, cerca de 2800 páginas de documentos foram analisadas para compor a análise do caso. Os resultados indicam que se entendermos a RSC como os impactos das atividades da multinacional, temos que o reassentamento de 5500 pessoas para dar espaço à extração de minérios sem legislação correspondente causou a violação dos direitos das comunidades em termos de informação, habitação, água, meios de subsistência e alimentação. Outro achado inclui a lógica de gestão da multinacional, à qual chamei de colonial e que incluiu o apoio da diplomacia brasileira de modo a obter o direito de extrair minérios, o relacionamento com o governo local marcado por ameaças e coerção, assim como a construção dos locais como subalternos em relação aos brasileiros. A análise das ações de RSC da corporação em estudo indica que a publicação de informações ambientais e sociais parece ser uma forma de justificar e atenuar os impactos da atuação da mesma na sociedade local. Além disso, a empresa parece querer impor um desenvolvimento a que chamei de brasileiro à sociedade africana, sem levar em conta o que esta última entende como tal. Assim sendo, esta tese contribui para o debate de RSC: ao destacar que a perspectiva política de RSC não dá conta de explicar a atuação da multinacional em estudo na periferia global, ao descortinar como a construção de subalternidade em termos de raça e cultura se revela e ao propor a ideia de uma hierarquia de subalternidades na periferia global. Por fim, defendo a necessidade de romper com a lógica colonial no que tange ao desenvolvimento local.
Ficha do documento
- Tipo
- Tese
- Ano
- 2016
- Instituição
- Fundação Getulio Vargas
- Fonte
- Repositório da FGV
- Idioma
- Português
- Acesso
- Não informado
- Identificador
- oai:repositorio.fgv.br:10438/16957
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